Com novo discurso, MST tenta atrair militantes urbanos

30º Encontro Estadual do MST reuniu 1,4 mil pessoas em Salvador (Foto: Divulgação)

Com espaço reduzido junto à população camponesa nos últimos anos, devido ao avanço de movimentos sociais concorrentes, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) montou uma estratégia para atrair militantes de esquerda urbanos por meio do que chamam de ?reforma agrária popular?.

Na Bahia, onde há 12 mil famílias ligadas ao movimento assentadas em projetos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), de um total de 48.664 famílias, o MST busca aproximação com simpatizantes dos LGBTs, do empoderamento feminino, ambientalistas e de defesa dos direitos dos negros.

De acordo com integrantes da direção nacional do movimento, o novo termo é uma reformulação do que chamam de ?reforma agrária clássica?, que visava colaborar para a melhor distribuição de terras no país e atacar os latifúndios por meio de ocupações de fazendas consideradas por eles como improdutivas.

Ocupações estas que espalhavam o terror no campo durante o Abril Vermelho, quando o MST realizava invasões em todo o país, para lembrar que no dia 17 de abril de 1996 ocorreu o massacre de Eldorado dos Carajás (PA), com o assassinato de 21 sem terras. Na Bahia, além de fazendas, o MST ocupava também prefeituras.

Hoje em dia, porém, o Abril Vermelho tem importância secundária para o movimento, que elegeu o mês de março para início das ações, durante a ?jornada de lutas?. O mês é marcado, sobretudo, pela participação das mulheres em ocupações de fazendas e fechamentos de rodovias federais e estaduais, como forma de protesto.

O MST entende que a luta pela reforma agrária hoje em dia não interessa somente aos sem terras, mas a todas as pessoas que têm a consciência de que boa parte do alimento que vai à mesa dos brasileiros é oriunda da agricultura familiar, já que a maior parte de toda a produção do agronegócio vai para fora do país.

Outra justificativa que os dirigentes estaduais do MST apontam para a aproximação com movimentos urbanos é que as bandeiras que os movimentos da cidade defendem foram, ao longo dos anos, se tornando cada vez mais presentes dentro dos assentamentos, sobretudo a questão racial, já que a grande maioria dos militantes são negros.

Encontro
A ?reforma agrária popular? foi a tônica do discurso do movimento no 30º Encontro Estadual, realizado com 1,4 mil pessoas em Salvador, que foi do dia 10 até o domingo passado (14), quando o MST elegeu a nova coordenação estadual para os próximos dois anos, liderada por Lucineia Durães e Evanildo Costa, ambos de Itamaraju, no Extremo Sul do Estado ? no MST, os cargos são ocupados por um homem e uma mulher, de forma igual, para fazer com que haja paridade.

Lucineia Durães, coordenadora do MST na Bahia (Foto: Divulgação)

O Extremo Sul é a região onde o movimento nasceu na Bahia, com a ocupação de uma fazenda no município de Alcobaça, em 7 de setembro de 1984. A fazenda virou um dos 160 assentamentos regularizados pelo Incra, dos 691 criados posteriormente na Bahia até o final de 2017. A área dos assentamentos soma 2.044.783,26 hectares.

Além dos assentados, o MST diz que possui na Bahia mais de 20 mil famílias em 218 acampamentos espalhados pelo estado. No Brasil, de acordo com informações do Incra, há 972.289 famílias em 9.374 projetos de assentamentos rurais, os quais ocupam uma área de quase 88 milhões de hectares.

Cerca de 350 mil famílias assentadas no Brasil são ligadas do MST, afirma o movimento, que disputa espaço e militância com sem terras ligados à Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetagri), à Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf), ao Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), ao Movimento de Luta pela Terra (MLT), à Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura (Fetag), dentre outros.

Engrossando o caldo
A recém-eleita coordenadora estadual do MST na Bahia, Lucineia Durães, uma engenheira agrônoma de 34 anos, diz que a proposta da reforma agrária popular ?é uma aliança entre a classe operária da cidade e camponesa, construída pelo MST e aprovada em seu VI Congresso Nacional, em Brasília, em 2014.?

?É uma estratégia de construção da reforma agrária do campo e também para os trabalhadores da cidade. A proposta é fruto de um debate construído com toda nossa base social, com participação de todas as classes onde o MST está organizado, e no nosso congresso, tomamos a decisão de que a reforma agrária clássica não daria mais conta do debate que nós queríamos fazer, que é o de envolver as pessoas que moram na cidade e que precisam de uma vida digna?, disse ela.

?Então, a reforma agrária tem de cumprir um papel para a população camponesa, mas também para a população urbana. E esse papel é produzir alimentos saudáveis, de produzir educação de qualidade também para a população do campo, para que a gente possa desenvolver tecnologias por meio da agroecologia, para produzir com melhor qualidade e com mais saúde para toda a população?, completou.

Apesar de não citar números, a coordenadora estadual do MST afirma que a nova concepção sobre reforma agrária tem atraído a militância. A reforma agrária popular ? destaca a dirigente ? ?é uma afirmação de que queremos uma sociedade diferente, onde as pessoas tenham acesso à terra e à alimentação saudável?.

?Existe um apelo da sociedade para o consumo de alimentos mais saudáveis. Então quando o MST se propõe a fazer a reforma agrária popular em um projeto que envolve educação de qualidade, educação e saúde camponesa, e que envolve agricultura agroecológica, sem dúvida muitas pessoas se atraem por essa ideia?, falou a dirigente, também conhecida como Liu.

Fragilidade na política
A aproximação do MST com movimentos da cidade está inserida ainda no contexto político atual, em que o PT, principal partido que apoia os sem terras, se vê enfraquecido com a perda do poder executivo na Presidência, depois da saída de Dilma Rousseff, em agosto de 2016.

Com isso, restou ao MST se concentrar em deputados federais e estaduais, governadores, prefeitos e vereadores para conseguir apoio para melhorias dos assentamentos rurais já existentes e pela criação de outros.

Ficou difícil também para o MST consegui apoio das prefeituras na Bahia, onde, na última eleição, o PT reduziu de 93 para 39 o número de administrações que comanda. Mas o movimento ainda possui como grande aliado na Bahia o governador Rui Costa.

?Hoje em dia, com a saída de Dilma, o poder político influencia mais para conseguir as melhorias que precisamos?, afirmou o deputado federal Valmir Assunção, do PT-BA. Com 51 anos, Assunção é de Itamaraju e milita no MST há 31 anos. A eleição dele é estratégica para o MST possuir representante na Câmara Federal em Brasília.

?Um assentamento, hoje, para ter projeto aprovado e receber recurso precisa levar em consideração toda a questão ambiental; antigamente, na época de Dilma e Lula, não precisava. Eu tenho lutado junto com os movimentos para conseguir a terra e os recursos, bem como água e o trator?, ele disse.

Sobre o apoio político na Bahia, reduzido com a perda de prefeituras por parte do PT, Assunção, que está no segundo mandato de deputado federal, tendo exercido o cargo de parlamentar na Assembleia Legislativa da Bahia por duas vezes, diz que ?o MST nunca colocou como prioridade a disputa eleitoral nas prefeituras?.

?Nem eu nunca pensei em ser eleito prefeito, por exemplo, nem penso. A militância sempre me quis como deputado porque posso ajudar mais o movimento dessa forma, estando em Brasília. Mas no dia em que me disserem para eu ser candidato a prefeito, aí podemos ver essa possibilidade?, declarou.

A respeito do momento político nacional neste início de ano, marcado pelo julgamento em segunda instância, na Justiça Federal, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dia 24 em Porto Alegre (RS), o MST da Bahia, apesar de considerar este como um dos momentos mais históricos da política nacional, informou que não marcará presença em terras gaúchas. Ao invés disso, realizará na Bahia atos em defesa de Lula.

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