Preço do diesel: a primeira grande crise do governo Bolsonaro.

Por Gilberto Maringoni

O acontecimento político central da semana é o veto de Bolsonaro ao aumento do Diesel, abrindo a primeira grande crise entre o setor ideológico e a banda financista de seu governo.

Bolsonaro pode ser tosco, mas não é burro. Não quer cometer estelionato eleitoral e fragilizar a relação com sua base entre os caminhoneiros e os muito que os veem com simpatia. Sabe, pelo exemplo histórico, que seria suicídio relâmpago. Perderia legitimidade e seu poder diante de todo o leque de interesses abrigado em sua administração.

Do lado de Paulo Guedes e seus apoios – o capital financeiro e a grande mídia -, a irritação e a crítica dura são explícitas. Não faltam colunistas comparando Bolsonaro a Dilma, pela tentativa de segurar preços públicos.

Operar preços dos produtos e serviços das empresas estatais sempre fez parte das táticas econômicas de distintos governos. Nos tempos de Delfim Netto (1979-85), essas companhias foram utilizadas não apenas para conter a inflação, como para servirem de avalistas a empréstimos externos para o Tesouro. O problema não é este.

O problema é que a Petrobras não é mais uma estatal estrito senso, mas uma empresa mista, desde que FHC abriu o capital da empresa na bolsa de Nova York, a partir de 1996. Hoje, o Estado detém cerca de 40% de seu capital. Antes das ações do tucanato, a proporção estatal passava de 80%.

Com isso, a companhia não se pauta mais pelas diretrizes estratégicas do Estado nacional, mas pela exigência de maior rentabilidade exigida pelos acionistas privados. Essa política foi consolidada por Pedro Parente, seu presidente entre 2016-18.

Assim, há um desvio de função da empresa. No lugar de garantir a segurança energética do país – atendendo primordialmente ao mercado interno -, sua bússola são preços médios globais. Não existe cotação internacional da gasolina na bomba, como acontece com o barril de petróleo. Mas existem preços que garantem ganhos crescentes para interessados.

A composição do governo Bolsonaro exige um equilíbrio constante entre sua base social – no caso, os caminhoneiros, cuja radicalização foi estimulada pelo ex-candidato – e o desvario financeiro. Numa crise econômica profunda, o equilíbrio é impossível.

O capitão está diante de uma “escolha de Sofia”. Qualquer aumento representará uma traição aos profissionais de transporte, cuja situação é brutalmente penalizada pela crise econômica. De outra parte, a alta finança não saciará sua sede de lucros – nem sua exigência de interferência zero do governo federal, mesmo sendo este representante do maior acionista – com nada menos que 5,7%.

Até aqui, a administração de extrema-direita não havia enfrentado uma escolha binária tão radical. Não se afiguram caminhos para arbitragem de interesses tão antagônicos e tão ferozmente defendidos por ambos os polos da contenda.

Os donos do dinheiro logo aparecerão com a solução mágica na manga: é urgente privatizar totalmente a companhia para livrá-la de constrangimentos desse tipo.

Diante de um beco sem saída, Bolsonaro terá de explicitar o que pretende. Qualquer das escolhas lhe renderá sérios prejuízos.

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